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A Nascente e o Improviso

Escrito por Nesrine


Foto: Jay Andreotti

 

Professora de Dança do Ventre há mais de 15 anos, Nesrine trouxe ao portal Central Dança do Ventre seu conhecimento sobre o improviso, traçando um paralelo poético sobre a dança e a nascente de um rio. Inspire-se nas palavras de Nesrine, respire fundo e comece seus passinhos pequenos em direção a um turbilhão de dança e paixão.

 

Ao olharmos uma grande cachoeira esbanjando força, poder e beleza, podemos esquecer que toda aquela água, que parece ser infinita em sua força, na verdade brota delicada e gentilmente em uma nascente pequenina e suave. O mesmo acontece com uma grande árvore frondosa, que veio de uma sementinha e não passava de um centímetro ou de uma mudinha com apenas algumas folhinhas. Na nascente, tão vulnerável, a água brota cristalina, mas ainda tem de se moldar aos caminhos que ela consegue se adaptar. É preciso contornar uma pedrinha porque ainda, mesmo que pequena, não é possível arrastá-la ou passar sobre ela. Mas é com o desenrolar das águas que ela vai se transformado, tomando corpo, força, velocidade e vai aumentando de tamanho.

 

É um ciclo da natureza.

 

O fiozinho segue seu caminho apenas carregando a si mesmo. Um pouco mais à frente e mais desenvolvido, já consegue dar espaço e abrigar plantinhas e pequenos peixes. Mais à diante, seu leito passa a irrigar e alimentar até mesmo quem está às suas margens. Consegue ter água para si e ainda para os outros. Se o fiozinho de água resolver cair de um grande abismo, as gotinhas não conseguirão nem manter-se juntas durante a queda. Mas se o fiozinho for paciente, continuar em frente em busca do seu caminho e tomar corpo, aí sim, no seu tempo, quando resolver atirar-se do abismo, esse será preenchido por toda sua água e teremos um grande espetáculo. É preciso percorrer o caminho como um fiozinho para depois tornar-se um rio e somente depois a cachoeira.

 

Somos parte dessa natureza. Então é preciso respeitar esse ciclo. A cachoeira não seria quem é se não tivesse respeitado e acolhido seu momento de fiozinho singelo e iniciante. Arriscar alguns simples passinhos nada mais é do que o início de uma grande cachoeira ou de uma grande árvore cheia de frutos. Assistir a uma grande bailarina e basear-se por essa apresentação para construir um improviso iniciante é como o fiozinho que se joga do abismo.

 

No início, improvisar uma dança nada mais é do que você ouvir a música, identificar o seu tempo, lembrar dos movimentos já aprendidos e fazê-los. Mesmo ainda com poucos movimentos. Sem regras. Sem pressões. Seria quase um absurdo nós querermos impor regras ainda tão cedo.

 

Executar os movimentos corretamente, não repeti-los, mostrar um grande repertório, leitura musical, expressão, movimentação em cena entre outros não são regras de um início de improviso. Essas são regras de uma apresentação de dança adiantada. Vale lembrar que desenvolver todos esses quesitos seria praticamente impossível sem aquele improviso inicial ainda repetitivo e com poucos movimentos.

 

Quando assistir a uma grandiosa apresentação de dança improvisada, lembre-se de que ela foi fruto do desenvolvimento de uma outra dança, anterior, simples, inocente e cheia de desafios. É preciso respeitar a natureza. Aceitar e acolher seu momento iniciante significa permitir-se treinar de maneira tranquila e sem pressões. Dessa forma você de desenvolve mais rápido e consegue seguir em frente sem maiores problemas.

 

A autocrítica, que geralmente avalia nossas apresentações como se fôssemos concorrer ao "Oscar da dança do ventre", somente é saudável se ela for sensata. Avaliar severamente uma aluna que está iniciando seus estudos não é sensato. Pense nisso e use e abuse de suas vantagens de poder errar, repetir, se enganar, testar e treinar. Isso lhe trará segurança, amadurecimento, prazer, autoconfiança e, ainda, um estilo só seu. Improvisar uma música é um dos exercícios mais completos que existe. Poderia listar um número infinito de benefícios.

 

Respeite. Permita-se ser uma nascente. E dance, porque é bom. 

 

Este texto é um capítulo do Ebook De repente a Dança - Desmistificando o Improviso na Dança do Ventre, que agora pode ser seu.

 

 

 

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