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A dança no Antigo Egito

Escrito por Sara Naadirah

Artigo escrito pela bailarina e professora portuguesa Sara Naadirah.

Não é possível falarmos de Dança Oriental, nos vários períodos da História, sem se perceber o que é a ela é. Afinal, o que é que significa Dança? E o que é a Dança do Oriente?

A palavra Dança vem da palavra sânscrita “tanha” que significa “alegria de viver”. “Raks” (dança em árabe) deriva da palavra asíria “rakkase” que por sua vez significa “celebrar”. Dançar, em grego: “orce-omai” deriva de “or-muni” que quer dizer despertar!

A dança mais que uma celebração à Vida, é o dizer a nós próprios que estamos vivos e como isso só por si já é maravilhoso! O movimento começa com o simples respirar e fundindo o movimento com o sentimento aí nasce a dança, a forma mais antiga de comunicação.

Para se perceber melhor, vamos recuar aos nossos antepassados, à época pré-histórica.

Não havendo nenhuma documentação escrita que suporte com precisão a dança na pré-história, o Homem deixa-nos algo mais intuitivo, que retrata e nos faz supor como seria a sua dança, ele deixa-nos estatuetas, pinturas e baixos-relevos nas paredes das grutas.

Umas das conclusões que se retira, é que a dança surge, como já tinha referido, como a primeira forma de comunicação. Ela consegue ser anterior à fala e à escrita.

Ao ritmo de um som muito rudimentar que escutava da Natureza, o Homem cedo percebeu que com os movimentos (que surgiam de uma forma inconsciente, intuitiva e natural) conseguia exprimir-se com ele próprio, pois tais movimentos provocavam sensações que não entendia, mas sentia, como por exemplo alegria, descontracção, prazer, dor, excitação, amor, etc… permitindo-lhe passar todas essas sensações também para os outros.

Outra conclusão que também se consegue perceber era o grande respeito que se tinha pela Mulher. Ser estranho e misterioso que produzia Vida. Também cedo se percebeu que a Mulher está intimamente ligada aos Ciclos da Natureza, ela era a representação terrena da Deusa Mãe, aquela que abençoava com a sua fertilidade, alimento, dona da Vida e da Morte. O Homem primitivo tinha uma verdadeira adoração pelo poder da Mulher com um forte cariz espiritual. Acreditavam, sem nenhuma espécie de dúvida, que havia algo superior e divino que “comandava” o mundo. A dança servia também como comunicação, homenagem e agradecimento a essa Deusa que tudo dava, mas que também tudo podia tirar.

O tempo vai passando, e encontramos na época faraônica, um homem culto, inteligente, sábio, sensível à Filosofia e à Arte. O antigo Egito foi uma das sociedades mais marcantes da história universal tão ou, ao meu ver, mais evoluída que as de hoje.

O forte sentido espiritual que adquiriram, foi tão glorioso, que é neste período que a Dança passa a ter um objetivo específico: ela é a ligação com o Divino, praticada em rituais religiosos. É nesta altura que a sua essência é forte e ricamente desenvolvida, de tal maneira, que dura até aos dias de hoje, com o nome de Dança Oriental.

Também através de pinturas, baixos-relevos e inscrições deixados nos templos e nas paredes das pirâmides percebe-se que o antigo Egito era uma sociedade matriarca, onde a Mulher tinha um papel fundamental.

A adoração à Deusa Mãe (que vai adquirindo vários nomes, como por exemplo: Isis, Ishtar, Afrodite, Diana, etc…) continua sendo ela a personagem e o motivo principal em celebrações religiosas onde as mulheres (sacerdotisas) tinham a exclusividade de comunicar com Ela homenageando-a, agradecendo-a, pedindo-lhe favores e proteção através de movimentos com o ventre carregados de simbolismo e energia.

Esses movimentos e arquétipos seriam a base técnica da Dança Oriental que conhecemos hoje. O corpo, principalmente o ventre e anca “desenham” figuras circulares que simbolizam os ciclos da vida (da lua, estações, marés, dia e noite, o nascer, viver e morrer) tão perfeitamente ligados à Mulher (os ciclos menstruais, de fertilidade, de dar à luz). Supõe-se que dançavam em trajes transparentes para uma maior visibilidade dos movimentos e as suas danças eram consideradas sagradas.

Também a música se desenvolve e também ela é tocada pelas mulheres. Começa por uma percussão executada com as mãos, um estalar de dedos, gritos e bater o pé compassados ritmicamente, passando para instrumentos de percussão parecidos com “sagats” mas de madeira, osso de um animal ou marfim. Posteriormente aparece o sistro, flautas, instrumentos de corda e uma maior variedade de instrumentos de percussão.

Embora os principais movimentos tenham resistido até aos dias de hoje, o seu significado, valor espiritual, energético e humano perderam-se. Cabe a cada uma de nós, que usa, para nosso próprio prazer, esta Arte milenar, tentar compreendê-la ao ponto de recuperar o seu significado mais primitivo.

A Dança Oriental é muito mais do que um amontoado de movimentos muitas vezes mal interpretados. Se quiser, Ela ajuda a uma comunicação consigo própria, melhorando a sua vida interior, que com certeza irá refletir-se na sua vida exterior.

Para compreender melhor, transcrevo parte de uma inscrição, de um cântico em louvor Hathor (deusa da dança e música) encontrada num dos templos:

“Nós tocamos as nossas percussões para o Seu espírito,
Nós dançamos pela Sua graça,
Nós vemos a sua linda forma nos Céus,
Ela é a nossa senhora dos Sistros,
Amante dos colares de areia.
Hathor é a senhora do Prazer e do Júbilo,
Amante da Dança, senhora do Sistro e Rainha da Música.
(…)
Senhora de toda a beleza, Amante das preces
Quando os seus dois olhos estão abertos: Sol e Lua
Os nossos corações rejubilam, recebendo a Luz
Hathor é a senhora da Dança Sagrada
Senhora do êxtase – não dançamos para mais nada senão para o seu Espírito…”

E agora reflita: A deusa Hathor é você!!!!

Sara Naadirah
Bailarina e professora de Dança do Ventre em Portugal
www.saranaadirah.com
saranaadirah@mail.pt


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